O Piolhito não foi [à praia esta semana e está ressabiado]

Basta aparecer um bocadinho de sol, que a malta tira as teias de aranha aos fatos de banho, apara o que pode e esconder o que não pode, procura os restos do protetor solar do ano passado, pega na toalha de praia que cheira menos a mofo, mete-se na sua viatura (ou vai à boleia) e enfrentado o trânsito, ruma sem dó nem piedade até ao banco de areia mais próximo. Ao chegar, escolhe o melhor local, com a melhor exposição solar, estende a toalhita, sacode o que pode e esconder o que não pode, e começa a simular as melhores poses. Depois, pega no telemóvel, tira uma, duas, três, quatro ou cinco fotografias e começa a selecionar os registos que melhor documentam o espírito da coisa.

A seguir, depois da parafernália fotográfica, e da seleção prévia, começa-se a fazer o upload para tudo o que seja rede social, porque o objetivo primordial é disseminar o mais possível aquela “prova”. Sim, os pinguins que estão descansados lá pela Antártida, morrem se não souberem que fomos à praia. Mas mesmo assim, com medo que as pessoas não percebam o contexto da coisa, porque uma fotografia pode não ser assim tão elucidativa, toca a adicionar uma legenda convincente como “o mar acalma-me” (ao mesmo tempo que se mostra o biquíni), “está calor” (porque se estivesse frio a pessoa não se despia), “primeiro dia de praia do ano” (porque esta é uma informação fundamental), “está favorável” (porque se não estivesse, não estaríamos de certeza ali) ou “olha para mim a fazer de Ariel” (a fazer beicinho e com um ar “ups, não estava à espera da fotografia).

Mas ficamos por aqui? Claro que não! Para alguns que não conseguiram a proeza de aproveitar o sol da semana, bastou repescar umas fotografias antigas (mas sem estar o bronze muito evidente para não dar muita “cana”), colocar uns filtros e corrigir alguns “defeitos” e publicar em tudo o que é sítio. Sim, porque há que acompanhar a moda e não podemos ser infoexcluídos, e não é porque não conseguimos ir até um local para tirar umas fotografias para o verão 2018 que vamos ficar de fora. Nada disso. Os mais audazes, escolhem um local edílico e juram que a pés juntos que estão ali (abençoados serviços de localização que não nos obrigam a estar onde estamos), sendo que os mais modestos apenas colocam um #tbt, porque o que interessa é expor o corpinho, mostrar que se está vivo e que acompanhar o movimento:
#vamostodosmostrarosraiossolaresaqueimaranossapeleporquesomostodosgabrielacravoecanela.

Ok, ok, bem sei que nesta altura do calendário estamos quase todos sedentos de calor, mas não precisamos todos de fazer tudo ao mesmo tempo. Não existe nenhuma competição para ver quem foi o primeiro a chegar à praia (ou relva, ou terraço, ou whatever), tirar a roupa, sacar do telemóvel, tirar uma fotografia e publicar imediatamente no Instagram ou Facebook. E se houvesse, tinha que existir um prémio, e se houvesse uma competição com um prémio, o Piolhito iria arrastar-se (mesmo que estivesse a morrer) para ganhar. Sim, porque o Piolhito não gosto de perder nem a feijões, nem a copos de água – é pah, isto de se falar na terceira pessoa já se está a tornar sinistro.

E pronto, já sei que as más-línguas vão dizer que estou com inveja, com ciúmes ou que me estou a armar em macaca intelectual. Mas sim, posso confessar que escrevi isto com um ligeiro ressabiamento porque estive doente a semana toda e não conseguiu aproveitar o sol (nem sequer na esplanada), mas a vida é mesmo assim. Um dia vai-se à praia, noutro destila-se veneno.



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