O Piolhito não viu [os "Guelobelos de Oiro"]


Para ser sincero, tenho de reconhecer que não vi a Gala dos Globos de Ouro da SIC (ou "Guelobelos de Oiro" – para não confundir com os originais). Confesso, porém, que ainda me predestinei a isso (porque gosto da ideia do reconhecimento do trabalho e esforço individual), mas ao assistir à abertura do evento, a roçar uma iniciativa do Turismo de Portugal, vendendo Lisboa e Porto como destino turístico (como se algum estrangeiro fosse ligar alguma coisa a isso) com muitos confettis e brilhantes (quase a lembrar um anúncio muito conhecido, destinado ao público feminino, onde alguém grita “sou a tua cena-tal-e-coiso”) fiquei muito desapontado. 

Tipo, o melhor que sabemos fazer é uma “mini-revista” à portuguesa com o João Baião pendurado por uns cabos durante uns minutos, onde estamos horrores de tempo a ver o dito a desenvencilhar-se desses mesmos cabos para depois ouvir umas músicas com umas letras sofríveis sobre… “turismo”? Mas a dita Gala era dos prémios ligados ao turismo? Estava relacionada com larear a pevide? Era um evento para ofertar viagens ou colchões? Ou estávamos na BTL? Fiquei confuso. Mais valia terem contratado o Luís de Matos dentro de um tanque com água e cheio de correntes, alugado um “tuk tuk” para passear pelo Coliseu fora, ao mesmo tempo que ouvíamos um(a) fadista qualquer.

Bom, bem sei que estamos em Portugal, mas não precisamos de ser sempre coitadinhos ou demasiado modestos. Basta relembrar o número de abertura da Eurovisão feita em Lisboa, ou até os prémios Sophia da Academia Portuguesa de Cinema, para percebermos que somos capazes de bem melhor. De um espetáculo de abertura melhor. De um palco melhor. De um dinamismo entre momentos melhor. O facto, é que esta iniciativa da SIC e da revista Caras, mais não é que a “festa de Natal” da Impresa empresa, onde os trabalhadores são quase obrigados a comparecer e onde se trocam cumprimentos com colegas que já pensávamos que estavam reformados. Não podemos comparar este evento com cerimónias como os Óscares, os Globos de Ouro (os verdadeiros) ou os Tony’s, porque tudo ali tudo cheira a poucochinho. E com isto não quero dizer que somos “pobrezinhos” ou não temos capacidade para fazer algo melhor, apenas relembro que “menos é mais” e para se fazer uma coisa com bom gosto, imaginativa, diferente e memorável, basta ter criatividade. E vontade.

Ainda sou do tempo, que muitos como eu, colados à televisão, garantíamos um sucesso televisivo aos Globos de Ouro. Num país cinzento e que vivia (vive?) da cunha profissional, a ideia de se premiarem os melhores dos melhores, era de facto uma inovação. Finalmente iríamos reconhecer aqueles que mais se tinham destacado em determinado ano, sempre com o aval do público e numa cerimónia que pretendia ser o corolário desta magnitude. Contudo, de ano para ano, verificamos a pobreza da cerimónia, da ideia e do objectivo. Agora, temos uma passadeira vermelha, onde alguns passeiam algumas roupas e jóias (muitas emprestadas), falando destes acessórios como se fosse a coisa mais importante do mundo. Bem sei que é uma cópia fiel do que se faz lá fora, mas sinceramente, ate neste ponto se copia mal.

Ou seja, além de um acontecimento interno que se pretende vender como “nacional”, ainda temos que levar com as piroseiras dos vestidos, de uma passadeira vermelha, conversas ocas sem sentido e cópias e cópias daquilo que se faz lá fora – mas em mau. Do género… Globos de Ouro? A sério? A imaginação não deu para mais? Na altura da criação não podiam ter chamado outra coisa qualquer ou ter inventado outro objecto mais… original? Ok, ok, já está, já está, e já passou uma vintena de anos, mas não podemos mostrar uma inovaçãozinha? É pah, nem que seja no palco (aprendam com a Eurovisão caramba!), ou nas categorias, ou na maneira como se entrevistam as pessoas. Olhem, em qualquer coisa, porque aquilo de ano para ano torna-se cada vez mais sofrível e deprimente. Em última instância sempre podem deixar de transmitir pela televisão – e também não se perdia nada.



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