O Piolhito está [a pensar nas vezes que não disse "não"]


Quantas vezes na vida, conseguimos dizer que não? Quantas vezes conseguimos soltar um verdadeiro e sentido, não? Quantas? Vá, façam-me a vontade e contem (nem que seja pelos dedos). Obviamente que não me refiro àquelas respostas lacónicas, ditas entre dentes, que apenas soltamos só para não arranjar chatices, ou como dizia Mahatma Gandhi, “meramente para agradar, ou, pior ainda, para evitar complicações”. Pergunto, em quantas situações conseguimos proferir um “não” com tal convicção, que não deixamos dúvidas nos outros interlocutores? Quantas?

Nos nossos círculos familiares, sociais ou profissionais, somos constantemente postos à prova e o resultado final de determinadas situações, depende de um sim ou de um não. Quantas e quantas vezes soltámos um “sim” a uma chefia só para não pensarem que complicamos demais? Quantas e quantas vezes anuímos perante um amigo, só porque não queremos que ele fique chateado connosco, sabendo porém, que não é o que pensamos, que não é o que defendemos? Porque seremos por vezes tão fracos e não conseguimos impor desde logo um limite? Será por medo de represálias (sejam elas quais forem) ou porque queremos ser aceites no imediato? Haverá alguém que consiga, sem exceção, proferir todas as respostas negativas que verdadeiramente quer, sem arranjar desculpas? Há? Não creio.
A verdade, é que por vezes um “sim” parece-nos muito mais fácil que um “não”. Tipo, não nos vão chatear, vão-nos achar uns porreiros (pah!) e vão olhar para nós como um tipo que não complica. Somos um scone gostoso, preparado para ser mergulhado em chá quente e que vai ser comido com prazer e satisfação. Ora bem, tudo isto é muito interessante e espetacular, se não houvessem depois, consequências. Sim, essas coisas chatas que nos perseguem só porque somos adultos e temos que viver com as nossas (boas e más) decisões. Não dissemos que não a trabalho extra, e depois torna-se obrigação dar aquele jeitinho final. Não conseguimos deixar o colega sozinho a acabar o trabalho, e de repente aquele “bónus” passa a constar da nossa lista de tarefas. Não sabemos dizer que não àquele um amigo, que nos pede encarecidamente para ir com ele a uma festa, porque não conhece ninguém, e depois ficamos sozinhos a noite toda. Etecetera, etecetera e etecetera. Não podemos confundir contudo, com aqueles que dizem que "sim" a tudo para tirar vantagem. 

Há situações para as quais já sabemos que a resposta, a determinada equação, é não. Porque não apetece. Porque achamos que não. Porque não faz sentido. Porque não. Porém, no momento da verdade, formulamos uma resposta negativa que nos faz arrastar a boca como se estivéssemos a ter um AVC. E enquanto na nossa mente é desenhado um magnífico "não", digno de logótipo premiado, ao no nosso público sai, um sim tremido. Tremido, mas um sim. O suficiente. O suficiente para não se conseguir refutar. Recusar. Voltar atrás. Assumir que não é aquilo que queremos. Seremos fracos? Ou talvez não temos o hábito de pregar recusas? Só sei que quando acontece, a malta fica revoltada consigo mesma e só pensa ir para a casa de banho esbofetear-se, até porque depois vai chegar ao pé de nós um qualquer piolho irritante, que nos diz: “se tivesses dito que não…”

Pessoalmente, com o passar do tempo, já consigo proferir mais vezes “não” do que no passado – e não o faço só para irritar, apenas é a conclusão do que penso sobre determinado assunto. Talvez tenha aprendido que as consequências irão existir sempre, e é preferível ser julgado pelas decisões que tomo, que pelas sentenças botadas por terceiros, até porque a frase de Gandhi continua a fazer todo o sentido: “um não dito com convicção é melhor e mais importante que um sim dito meramente para agradar, ou, pior ainda, para evitar complicações”.


Nota de redação (sinto-me tão importante a escrever isto, porque este blogue até parece um projeto sério): Os "não´s" aqui retratados são aquelas negativas quotidianas que soltamos na nossa interação com outros seres humanos. Como aquele tipo que vai fazer uma troca de umas calças de ganga, a uma loja de uma marca super conhecida, num centro comercial perto de si, e as meninas que lá trabalham baralham aquilo tudo e fazem com que uma operação simples, se torne numa formula matemática irresolúvel e dizem "não se importa que demore mais dias, certo?", e nós embora gritemos um "NÃO" interiormente, acabamos por dizer "pode ser".

Obviamente, que noutras circunstâncias da vida, um não é sempre um não - mesmo baixo ou tímido. 

Ps. Ahhhhhhh! As minhas calças de ganga chegaram hoje à loja.   

2 comentários:

  1. Para além de me parecer que há gente com pouco para fazer... gostei muito do artigo. Concordo plenamente. Mas tem calma, um dos benefícios que a idade traz é a capacidade de conseguirmos dizer mais vezes NÃO. Lá chegarás.
    P.S.: É a última vez que tento deixar aqui um comentário, se isto não funcionar juro que compro Quitoso e dou cabo do piolhito.

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    1. AHAHAHA Tanto que insististe que conseguiste :P É a idade e as novas tecnologias :P

      Mas sim, espero chegar "lá". Seja isso onde for :P E quando se quer arranja-se sempre tempo! Não é preciso não ter nada pata fazer, mas sim alguma vontade.

      Beijinhos

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