O Piolhito está [revoltado]

Quando me predispus a escrever estas linhas, confesso que fiquei melindrado. Fiquei com muito medo em adicionar Bolsonaro, Manuela Moura Guedes, André Ventura e Hitler no mesmo texto, porque parece que arranquei um mau presságio, transportando-o para a realidade. Mas não sei, talvez sejam apenas fantasmas que desenho sem necessidade. Talvez seja nada. Talvez seja tudo. 

Todos os extremismos são perigosos, são um retrocesso civilizacional e castradores de liberdades coletivas e individuais. Geram intolerância, desenvolvem ódios, criam anticorpos e perseguem minorias, umas atrás das outras. Não percebo como é que um qualquer Bolsonaro acredita que as mulheres são seres inferiores, ou que estejam reduzidas a reuniões de “tupperware” – como gostava Manuela Moura Guedes. Uma mulher com um cartaz na mão poderá ser, ou não, uma ativista, mas independentemente dessa condição, deverá ter sempre a liberdade de protestar, manifestar, apoiar ou participar, se o assim o entender, sem ficar manietada só porque é mulher. Participar na sociedade na qual está inserida, e expressar opiniões, não significa necessariamente que uma mulher tenha de ser ativista. Pode ser, “simplesmente” mulher.  
 
E sabemos muito bem como funciona esta coisa dos “extremos”. Um dia ataca-se uma minoria, e a maioria não se importa, até porque não é nada com eles. Noutro dia, redefine-se a mesma metodologia, até se conseguir amputar a capacidade critica de toda uma sociedade, restando apenas a obediência cega, a algo que nem percebemos muito bem o que é. É assim que Bolsonaro funciona. É assim que André Ventura funciona. Foi assim que Hitler funcionou. Primeiros os judeus. Depois os ciganos. Depois os homossexuais. Depois os deficientes. Depois os comunistas. Depois os socialistas. Depois os sociais-democratas. Depois a esquerda e a direita. E depois quem critica. Depois quem pensa diferente. Depois todos aqueles que querem refletir. Até não restar ninguém que consiga gritar liberdade, anestesiado que está, pela alheação da realidade.
 
Contudo, enquanto alguém grita “cuidado!”, há sempre outro alguém que diz que é diferente. Que é um exagero, ou que pessoas apenas querem ouvir aquilo que guardam interiormente, fechado a sete chaves, porque não têm coragem de verbalizar. Que a Venezuela aquilo e que a União Soviética aqueloutro. Mas um erro não apaga outro. Um crime não justifica outro. E a verdade, é que estes movimentos impositivos conseguem sequestrar a democracia para ditarem as suas ficções. Para dizerem que vão mudar. Mas com que preço? Quantas mortes vale uma mudança? Quantos espancamentos e perseguições, garantem algo melhor? Vamos cimentar o nosso percurso com as desgraças dos outros? Vamos conseguir deitar-nos de noite e dormir descansados, sabendo que alguém vai estar a sofrer por aí, algures? Será que a solução está na abolição do casamento homossexual, como defende André Ventura, ou na diminuição do ser humano perante as suas condições genéticas de pele ou de sexo, como prega Bolsonaro? Ou que o futuro do ser humano é ser "ariano" como queria Hitler? É isto que vai mudar o que quer que seja? É? Espero que pelo menos, estejamos todos cientes, que no fundo, no fundo, todos somos minorias que vivem sob a capa de uma maioria que garante pontos de toque, ao mesmo tempo que nos faz divergir em muita coisa. 

E ao mesmo tempo que vou debitando estas palavras, escuto Lady Gaga e Bradley Cooper, a cantar Shallow (do filme A Star Is Born). E isso faz-me ter esperança no futuro. 


“I’m off the deep end, watch as I dive in 
I’ll never meet the ground
Crash through the surface 
Where they can’t hurt us 
We’re far from the shallow now”


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