O Piolhito está [a tentar saber em quem vota a jornalista Clara de Sousa]

Nos dias que correm, uma qualquer página de Facebook, consegue-se intitular como "órgão de comunicação social". Portanto, não é de estranhar que muitas pessoas, deliberadamente, ou sem saber, partilhem falsidades, mentiras, incorrecções ou boatos. A par da democratização cada vez maior da informação, cresceu a inércia e a preguiça de se confirmar o que quer que seja. Vivemos numa aldeia gigante, onde o diz-que-disse ganhou etiqueta de "jornalismo". Isso leva-me a questionar: em que partido votará a jornalista Clara de Sousa?  

E o que tem uma coisa a ver com a outra? Tudo. Até porque nem sei as tendências políticas, ou em quem vota (ou está a pensar votar) a Clara de Sousa. Não sei, nem tenho que saber. E para mim um bom jornalista é isto: é mostrar isenção. Não é esconder, se concorda ou discorda com determinado Governo, não é anular os seus direitos constitucionais, mas sim, questionar, procurar, estudar de igual forma, todos os pormenores, independentemente de se sentir próximo ou não. E a Clara de Sousa, talvez seja actualmente, o símbolo maior desta isenção em Portugal. São estes comportamentos que credibilizam a classe, e que dão força, a que todos acreditemos no jornalismo dos factos - e não nas notícias do Facebook ou de blogues mais ou menos anónimos.

Obviamente, que nos últimos tempos, muitos jornalistas ultrapassaram esta barreira (e refiro a título de exemplo, o Bernardo Ferrão, o José Gomes Ferreira, o José Rodrigues dos Santos e Manuela Moura Guedes, por considerar os casos mais gritantes) demonstrando que um profissional desta área pode ter opiniões mais politizadas. Mas será que deve? Será que isso não criará anticorpos em que escuta? Será que não poderá originar desconfiança e indiferença em terceiros, quando os factos são relatados? Será que não empurrará as pessoas para junto dos "seus", refugiando-se nas notícias que se querem ouvir? É que não podemos esperar, que uma maioria procure o contraditório... até porque não o vão fazer, simplesmente porque já existe um hábito enraizado de receber a informação mastigada.

Também não nos podemos esquecer, que nos últimos tempos, apareceram várias plataformas de cariz noticioso e de opinião, verificando-se nalgumas a tentativa de fragmentação do pensamento, obrigando a escolher um lado, enquanto noutras existe a tentativa de garantir a verdade. Refiro aqui três projectos distintos: o Observador, a Geringonça e o Polígrafo. O primeiro, registado na ERC, refere no seu estatuto editorial que "nunca nos deixaremos condicionar por interesses partidários e económicos ou por qualquer lógica de grupo", o que não deixa de ser curioso, dada a sua posição assumidamente de direita. Parece, que a informação é filtrada ao ponto, de apenas se questionar um lado, de apenas querer mostrar um caminho, seccionando de alguma forma, a realidade. Já a Geringonça, que se pode encontrar no Facebook e em site próprio, surge como um instrumento de discussão de políticas de esquerda, que não sendo propriamente um órgão de comunicação social (pelo menos junto da ERC, não observei o seu registo), poderá ter um pouco mais de liberdade naquilo que escreve. Por fim, o Polígrafo (alojado na plataforma Sapo)que se assume como um "verificador de factos", o que nos dias de hoje, mostra toda a pertinência do projecto, fazendo todo o sentido. Dada a sua recente aparição, ainda consegue reunir algum consenso de isenção - veremos no futuro. 

Tudo isto, vai permitindo o crescimento - cada vez mais acelerado - de "notícias". De coisinhas fabricadas, que se "viram" no Facebook ou num qualquer blogue anónimo e se partilharam porque se concordou com elas, ou porque pareciam verdade. Tudo isto, vai distanciando as pessoas da verdade, obrigando-a a escolher um lado. Difundimos imagens do José Sócrates, num jantar, com a suposta nova Procuradora Geral da República e dizemos "isto está tudo comprado", sem sequer termos a noção que aquele registo é uma montagem. Ficamos revoltados com a Catarina Martins (dirigente do Bloco de Esquerda), porque ela defende uma coisa e anda com relógios de 40 mil euros no pulso, mesmo que estejamos perante outra mentira. Soltamos ódios a Cavaco Silva, porque foi em tempos informador da PIDE, mesmo que nunca o tenha sido. Não se iludam. Ninguém está a salvo. Vivemos num ambiente de aldeia global, onde basta ter alguém que não goste de nós, para inventar algo para nos tentar atingir, difamar ou destruir. A verdade nunca esteve tão em perigo como agora. Por tudo isto - e mais um par de botas, acho fundamental que continuemos sem saber, em quem é que a Clara de Sousa vota, ou irá votar nos próximos actos eleitorais.  


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