O Piolhito não gosta [de pessoas]

Não sou uma pessoa que goste muito de interagir com outras pessoas (assumo!), e sou bastante nervoso, quando as pessoas invadem o meu espaço vital. Principalmente de madrugada, quando ainda estou a abrir a pestana. Agora imaginem, acordar às 6h00m para entrar no ginásio às 7h00m, e andar a bufar até completar o treino porque as pessoas têm um plano diabólico para me levar à loucura. Mania da perseguição? Não. Apenas é a constatação de um facto, comprovado por pequenos episódios intermitentes, que justificam o meu comportamento anti-social.  

Habituei-me, desde "jovem'cito" inocente e imaculado, a levantar-me cedo da cama e ir levantar pesos. Assim, conseguia aproveitar o resto do dia para fazer outras coisas, embora tivesse consciência do sacrifício que fazia. Nesses tempos, em que tinha mais pujança física, haviam alturas que fazia treinos bi-diários e conseguia, não só a proeza de me levantar cedo, como ir no final do dia fazer três aulas ao ginásio. Depois vi a luz e deixei-me disso. E quase a bater nos quarenta, o corpinho já dá sinal de querer substituir a correia de distribuição e uma pessoa muda. A bem ou a mal, a pessoa muda.    
Até ao início de 2018, frequentei uma cadeia de ginásios (que não posso dizer o nome, apenas que acaba em "Place") e ia alegremente pela manhã (ia nada, ia rabugento) treinar. Até esta data, naquele período horário, haviam poucas pessoas (o que me agradava e me fazia gostar de andar ali) e como não sabia o nome de ninguém, colocava um cognome para ser mais fácil identificar as personagens. Além de mim, era frequente encontrar por lá os três "estaloras" (o "miúdo", o "macho" e o "velho" - eu sei, sou uma pessoa horrível) e o "pintas". A convivência era mais ou menos pacífica, mesmo às quartas-feiras quando treinávamos todos "perna". Esperando aqui e ali, conseguia-se fazer um esquema em condições. 

Até que um dia (isto já parece um conto de fadas), o "pintas" resolveu levar a irmã e a namorada. O "miúdo" resolveu levar a sua "miúda", e como isto já tinha poucos sinais que iria ser uma boa comédia, juntou-se uma pessoa de baixa estatura. Mas calma! Adicionaram-se ainda ao elenco, duas amigas da irmã, que só faziam agachamento. De um momento para o outro, um ginásio que era zen pela fresquinha, transformou-se num metro em hora de ponta, onde todos treinavam em carrossel, demorando mais de 40 minutos em cada máquina. Eu bufava, porque não conseguia fazer um treino em condições e estava desesperado porque me levantava super cedo para estar ali. 

Mas se situação já era grave, imaginem todas estas personagens em interacção. Os três "estaloras" numa máquina a fazer um determinado exercício, a gritar "forçaaaa", e do outro lado do ginásio, o "pintas" a responder, berrando "forçaaaaa", e a pessoa de baixa estatura a tentar agarrar, aos saltos, a pega da máquina do tríceps, ao mesmo tempo que entrava na brincadeira com os outros, dizendo "forçaaaa" como se lhe tivessem a apertar os "tintins". E eu a bufar.  A desesperar. A pensar na cama que estava em casa. Tipo... não. Não estava disponível para aquele enredo, onde toda a gente berrava, arrotava, deixava toalhas espalhadas pelo ginásio e recipientes de água a guardar "vez" nas diferentes máquinas. Não. Não é embirração minha, a culpa era mesmo das pessoas.  

Comecei a fazer treinos "expresso" para me despachar e demorava mais tempo nos balneários (a tomar banho e a arranjar-me) para tentar ter algum descanso mental e reorganizar o pensamento. Mas até isso se tornou impossível. O "pintas" começou a ir para os balneários mais cedo. Despia-se e andava a passear todo nu pelas instalações, a comer uma banana. Entretanto entravam os três "estarolas", a pessoa de baixa estatura e mais uns quantos que entretanto apareceram, iam todos tomar banho ao mesmo tempo e faziam concertos "grátis", com a canção da Mariza: "Ó gente da minha terra". Enquanto a maioria fazia uma voz grave aos berros para dar crédito à coisa, a pessoa de baixa estatura cantava como se lhe tivessem a apertar os "tintins", em ligeira surdinaNão morri naquela altura, mas estive quase a perecer.   

Obviamente que não aguentei a pressão. Esta perseguição psicológica derrubou-me e mudei de ginásio. Teve que ser. Ou isso, ou comprimidos. E com toda esta situação, já não posso ouvir aquela música da Mariza, sem pensar que me vai aparecer de algum lado, a tal pessoa de baixa estatura, a cantar como se lhe tivessem a apertar os "tintins" e o "pintas" todo nu a comer a banana. 


Sem comentários:

Enviar um comentário