O Piolhito está [a tentar arrendar ou vender]

Perante a conjectura que vivemos, comprar casa (arrendar ou pedir emprestado) virou uma dor de cabeça para qualquer um. Existem diversos factores que contribuem para este estado de sítio, e não há políticas de habitação que consigam estancar este fenómeno tão cedo. Chegámos ao absurdo de ver anúncios sobre um T0, numa aldeia remota do concelho de Mafra, sem janelas, onde é pedida uma renda mensal de 400 euros. Uma pechincha, dizem. Eu gostava era de saber, como é que num país onde o ordenado mínimo roda os 600 euros, uma família se pode dar ao luxo de arrendar uma casa – e já nem digo comprar. Será que os parques de campismo irão voltar a ficar na moda? Ou vamos deixar de comer para dormir descansados? Seja como for, isto anda tudo tão louco, que não verificamos só uma razão. Descortinamos várias. E eu consegui identificar algumas. Basta ler na segunda parte desta publicação. 


#investimento 

Como se não bastassem os ricos e milionários nacionais, ainda temos que levar com os dos outros países, e é vê-los todas as semanas a chegar ao aeroporto Humberto Delgado (ou Francisco Sá Carneiro, ou a Faro) cheios de vontade de fazer um investimento em Portugal, através da compra de uma casinha simpática no centro de Lisboa (ou Porto, ou em Matacães), com muita ou pouca vista, desde que consigam apanhar algum sol naquele corpo cor de copo de leite magro ou ligeiramente sem lactose. Chegam cá, pegam em #cash e pagam tudo a pronto. Sim, que dívidas são para os #tugas e não para os #camones. No fundo, a culpa de sermos pobres é nossa, bem como a incapacidade de não conseguir trepar na pirâmide social, como quem corre atrás de um frango assado, quando passa fome há quinze dias.


#imobiliárias 

A juntar a isto temos as imobiliárias, sendo que para estas, tudo faz valorizar o preço do imóvel. Está ao pé de uma escola? Valoriza. Nas imediações existem paragens de autocarro ou ciclovias? Valoriza, até porque a mobilidade está na moda. Ao pé de um ecoponto? Valoriza, porque a pessoa não tem de andar horrores para deixar os seus resíduos. Existe um passeio largo onde dá para estacionar o carro? Valoriza, até porque um imóvel com garagem é mais caro. Ao pé de um cemitério? Claro que valoriza, porque os vizinhos são sossegados e não dão trabalho nenhum – e se as campas tiverem flores, a vista até é bonita. A casa é um sótão num décimo quinto andar e só tem janelas voltadas para o céu? Obviamente que valoriza, porque ver as estrelas à noite está pela hora da morte, e considerando a comemoração dos 50 anos da alunagem, faz de conta que estamos no módulo Apollo – e isso não tem preço. Jamais. Em tempo algum. 


#reabilitação 

Basta abrir os anúncios sobre imóveis e descobrimos sempre oportunidades fantásticas. Agora muito em voga, temos os simpáticos apartamentos totalmente reabilitados, renovados e seminovos, mesmo que tenham setenta anos em cima. Basta rebocar as paredes, pintar, colocar uns móveis brancos e umas pastilhas novas na casa de banho e desenvolvemos uma pérola, que fará de qualquer comum mortal, o humano mais feliz de todo o sempre. O negócio aqui é comprar um imóvel por oitenta mil euros, limpá-lo, deixá-lo ao estilo do “Querido mudei a cena” e pedir o dobro do valor da aquisição. Se a casa fica nos confins do mundo, no meio de bairros controlados por cartéis de droga e mafiosos? Não interessa. A #imobiliária ajuda na venda! Quem é que diz que não a uma “ilha urbana cheia de estilo #cozy, semiprivada em jeito de condomínio privado, no meio de ambientes sociais diversos e desafiantes”? Só um louco. 


#airbnb 

Para já faço uma declaração de interesses: quando vou para o estrangeiro, utilizo algumas vezes o #airbnb. Porque lá fora é sempre diferente e eles ganham mais do que nós (vamos fingir que sim, só para me agradar). Adiante. Esta cena de arrendar (e não alugar, como já me explicaram amigos juristas, porque são bens imóveis e não móveis) tudo o que se mexe, para turistas e animais exóticos, começa-me a enervar. Estes seres da gandaia estão cá poucos dias e querem é um local para esticarem os pezinhos e dormir, sem grandes luxos – portanto qualquer coisa serve. Mas tem alguma lógica, só deixar no mercado de arrendamento aquelas casitas cujas janelas da sala, cozinha e quarto, dão para o muro de betão de acesso à garagem? Mas alguém considera que os sonhos de menino de um qualquer nacional, é estar a jantar na sala ou cozinha, a admirar todo um paredão, ao mesmo tempo que tenta identificar os sítios da cofragem? O que virá a seguir? Casas sem janelas, em modo de T0 a 400 euros de renda mensal, nas aldeias mais profundas de Mafra? Ai, espera. Já chegámos aí. 

E desse lado? Conseguem identificar mais motivos para esta alucinação imobiliária que vivemos? Deixem ficar nos comentários. 





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