O Piolhito está [a pedir para ficarem em casa]


















Voltei, porque estamos em Estado de Emergência. Voltei, porque estamos em guerra. Voltei, porque a angústia de ver tudo isto, é mais forte que a minha preguiça. Voltei, porque de repente ficámos isolados e com demasiado tempo para pensar. Em nós. Nos outros. Na vida. Voltei, porque nada disto faz muito sentido. Voltei, porque a necessidade de exteriorizar tudo isto, é uma necessidade extrema de sobrevivência. Física. Mental. Voltei, porque se não fosse hoje, seria amanhã. Voltei, porque era inevitável. Voltei, porque sim. Voltei, porque precisei de voltar.

Nunca pensei viver uma situação destas. Aliás, nunca ninguém pensou. Desvalorizámos ao início, porque não sabíamos a amplitude disto tudo. Porque a informação era escassa, porque foram escondidos factos relevantes e porque estava longe. E nós sabemos, que quando está afastado e é com os outros, existe uma tendência muito humana de achar que não é importante. Relevante. Preocupante. E então baixamos a guarda. Porque não há de ser nada. Porque somos sentimentalmente fortes e nada nos atingirá. Porque temos medo que nos cataloguem de histéricos, de melodramáticos ou alarmistas. No fundo, temos sempre medo de alguma coisa. E agora temos medo do Covid-19. 

>Mas agora não há muito a fazer, a não ser ficar em casa, de forma a não sobrecarregar o nosso Serviço Nacional de Saúde (que muitos queriam desmantelar), garantindo assim que exista a possibilidade de se salvar muito mais pessoas, do que as previsões vaticinaram. Portanto… fiquem em casa. Não saiam de casa. Não vão dar só um “passeio’zinho”. Não coloquem a vossa vida e dos outros em risco. Ainda não perceberam que deslocações podem ou não fazer? Não? Então deixo ficar aqui um auxiliar de memória:

a) Aquisição de bens e serviçosPor exemplo, ir ao supermercado e farmácia. Convém juntar as necessidades todas e ir ao mesmo tempo, evitando repartir por vários dias da semana. Ir ao café, para beber café, não se enquadra aqui. Temos que ter bom senso.

b) Deslocação para efeitos de desempenho de atividades profissionais ou equiparadasIr passear para o “passeio marítimo”, de uma qualquer localidade à beira mar plantada, não entra nesta exceção. Depois queixem-se. E não.

c) Procura de trabalho ou resposta a uma oferta de trabalhoConsiderando a atual situação do país, acho difícil, mas não é impossível. Ir passear para a praia, não é considerada uma atividade de procura de trabalho ou responder a uma oferta… a não ser que seja algo na restauração de bares de praia, nadadores-salvadores e senhores/as que vendem calippos ou cornetos: “olha, o Oláaaaaaaaaaaaaaaa fresquinho!

d) Deslocações por motivos de saúde, designadamente para efeitos de obtenção de cuidados de saúde e transporte de pessoas a quem devam ser administrados tais cuidados ou dádiva de sangueAqui não há dúvidas, certo?

e) Deslocações para acolhimento de emergência de vítimas de violência doméstica ou tráfico de seres humanos, bem como de crianças e jovens em risco, por aplicação de medida decretada por autoridade judicial ou Comissão de Proteção de Crianças e Jovens, em casa de acolhimento residencial ou familiar – Acho que continuamos sem dúvidas…

f) Deslocações para assistência de pessoas vulneráveis, pessoas com deficiência, filhos, progenitores, idosos ou dependentes – E mais uma vez… “sem espinhas".

h) Deslocações de curta duração para efeitos de atividade física, sendo proibido o exercício de atividade física coletivaBom… os conceitos-chave aqui são: “curta duração” e “coletiva”, ou seja, não são 2 horas e não são 2 pessoas.

i) Deslocações para participação em ações de voluntariado socialUm dos pilares da nossa sociedade (voluntariado social), sendo que nesta fase complicada, é mais necessário do que nunca. Também aqui, parece-me que não haverá interpretações dúbias.

j) Deslocações por outras razões familiares imperativas, designadamente o cumprimento de partilha de responsabilidades parentais, conforme determinada por acordo entre os titulares das mesmas ou pelo tribunal competenteBom… percebemos o que significa, não é?

k) Deslocações para visitas, quando autorizadas, ou entrega de bens essenciais a pessoas incapacitadas ou privadas de liberdade de circulação Sublinha-se o “quando autorizadas” e última parte. Ou seja, se temos um vizinho que não pode sair de casa e precisa de mantimentos ou medicamentos, nós podemos (e devemos) ajudar, e podemos sair da nossa casa para isso. Não é para ir para o café que tem a porta fechada (como acontece em Portimão) beber cervejas.

l) Participação em atos processuais junto das entidades judiciáriasNão é para ir passear. Não confundir “processuais” com procissões se faz favor.

m) Deslocação a estações e postos de correio, agências bancárias e agências de corretores de seguros ou seguradorasMais uma vez, mais explícito que isto é impossível.

n) Deslocações de curta duração para efeitos de passeio dos animais de companhia e para alimentação de animaisObviamente que não se enquadra aqui, passear o aquário com o peixinho ou o cão de louça.  

o) Deslocações de médicos-veterinários, de detentores de animais para assistência médico-veterinária, de cuidadores de colónias reconhecidas pelos municípios, de voluntários de associações zoófilas com animais a cargo que necessitem de se deslocar aos abrigos de animais e de equipas de resgate de animaisOu seja, fiquem em casa, e deixem trabalhar quem é necessário.

p) Deslocações por parte de pessoas portadoras de livre-trânsito, emitido nos termos legais, no exercício das respetivas funções ou por causa delasLeia-se: não é a maioria do povo português. Mais uma vez, temos de respeitar quem se encontra a exercer funções em prol da sociedade neste período chato.

q) Deslocações por parte de pessoal das missões diplomáticas, consulares e das organizações internacionais localizadas em Portugal, desde que relacionadas com o desempenho de funções oficiais Parece-me lógico.

r) Deslocações necessárias ao exercício da liberdade de imprensaJulgo que todos percebemos o porquê. Nestas alturas estar informados e ter informação de qualidade, é importante e fundamental. Não partilhem coisas de sites duvidosos (tipo “tugapress”, “bombeiros.pt”, “verdadeincomoda”, etc), nem de órgãos de informação com problemas deontológicos (sim, estou a falar do grupo Confina e da CMTV).

s) Retorno ao domicílio pessoalRetorno ou seja volta. Regressar. De qualquer uma das situações permitidas e mencionadas acima.

t) Outras atividades de natureza análoga ou por outros motivos de força maior ou necessidade impreterível, desde que devidamente justificados Ou seja, aqui é a exceção, sendo que isso, não é ir passear para os parques, para as praias, para as marginais e cenas parecidas. Para isso não já nenhuma justificação devida.



Ah e não nos podemos esquecer do seguinte: as pessoas que temos o dever especial de proteção (maiores de 70 anos, imunodeprimidos e portadores de doenças crónicas) só podem sair de casa para aquisição de bens e serviços, para deslocações por motivos de saúde, designadamente para efeitos de obtenção de cuidados de saúde, para deslocação a estações e postos de correio, agências bancárias e agências de corretores de seguros ou seguradoras, para deslocações de curta duração para efeitos de atividade física, sendo proibido o exercício de atividade física coletiva, para deslocações de curta duração para efeitos de passeio dos animais de companhia e para alimentação de animais e para outras atividades de natureza análoga ou por outros motivos de força maior ou necessidade impreterível, desde que devidamente justificados.


Posto isto, apenas quero terminar escrevendo, que acredito que iremos mudar. A sociedade irá transformar-se. Iremos valorizar mais aquilo que tem de ser valorizado. O toque. O abraço. O beijo. O carinho. As gargalhadas. A empatia que devemos ter pelo outro. O respeito e o “saber calçar os sapatos dos outros”, para não julgarmos levianamente. Mal ou bem, iremos mudar. Mal ou bem, iremos nos transformar em algo diferente, que espero que seja melhor. Para bem de todos.  


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